Introdução
O 25 de Abril de 1974 marcou um ponto de viragem na história de Portugal. O fim da ditadura não representou apenas uma transformação política; trouxe consigo profundas mudanças sociais, económicas e culturais. Com o regresso das liberdades civis, emergiu também o direito à informação, à educação e à escolha — pilares fundamentais que hoje sustentam debates sobre cidadania, saúde e bem-estar.
Num tempo em que se celebra a liberdade conquistada, é pertinente refletir sobre como ela se traduz nos hábitos mais quotidianos, como o ato de comer. A alimentação saudável, hoje amplamente promovida e discutida, seria impensável nas décadas anteriores ao 25 de Abril. Este artigo propõe uma reflexão sobre a forma como a Revolução dos Cravos abriu caminho para uma nova relação dos portugueses com a alimentação — mais consciente, informada e, acima de tudo, livre.
⸻
Antes do 25 de Abril: Alimentar para Sobreviver
Durante o Estado Novo, a realidade alimentar da maioria dos portugueses era marcada pela escassez, pela desigualdade e pela desinformação. A pobreza extrema, sobretudo nas zonas rurais, ditava uma alimentação baseada na subsistência: pão, batatas, toucinho, sopas e, ocasionalmente, algum peixe ou carne. Os legumes eram consumidos por quem os produzia e as frutas eram sazonais e limitadas.
A informação sobre nutrição era praticamente inexistente. A educação alimentar não fazia parte do currículo escolar e o acesso a produtos diversificados estava condicionado pelo poder de compra — e pelo isolamento geográfico e cultural. Comer saudável não era uma opção; muitas vezes, comer era apenas sobreviver.
⸻
25 de Abril: A Revolução Também Foi à Mesa
Com a Revolução dos Cravos veio o acesso à informação e à educação. A televisão e a imprensa passaram a veicular conteúdos sobre saúde, alimentação e bem-estar. As escolas começaram a incluir temas de cidadania e saúde nos seus currículos. Aos poucos, a população portuguesa começou a conhecer os benefícios de uma dieta equilibrada.
A abertura de fronteiras e o contacto com outros países também trouxe novos alimentos, novos hábitos e novas preocupações. A ideia de que a alimentação influencia diretamente a saúde passou a ganhar força, abrindo caminho para movimentos como o vegetarianismo, o veganismo, a agricultura biológica e a sustentabilidade alimentar — todos impensáveis sob o regime anterior.
⸻
Alimentação Saudável: Uma Liberdade Conquistada
Hoje, quando falamos em alimentação saudável, falamos de escolhas conscientes: optar por menos açúcar, por alimentos locais e sazonais, por refeições equilibradas. Estas escolhas exigem liberdade de acesso à informação, poder de decisão e educação crítica — três condições que só se tornaram possíveis graças ao processo de democratização iniciado em 1974.
Se antes a alimentação era condicionada por limitações materiais e censura ao conhecimento, hoje há espaço para questionar, aprender, decidir. Podemos discutir rótulos, denunciar aditivos nocivos, exigir qualidade nas cantinas escolares, promover hortas comunitárias e defender políticas públicas que garantam o acesso de todos a uma alimentação saudável. Tudo isto é liberdade em ação.
⸻
Desafios Atuais: A Liberdade Continua em Construção
Apesar dos avanços, a alimentação saudável ainda não é uma realidade para todos. A pobreza alimentar, a obesidade infantil, a influência da publicidade e o predomínio dos ultraprocessados mostram que a liberdade conquistada em Abril precisa de ser continuamente defendida — agora noutros campos: o da justiça social, da educação alimentar e do combate à desinformação.
Promover a alimentação saudável é, por isso, um ato político e cívico. É dar corpo ao espírito do 25 de Abril, garantindo que a liberdade chega à mesa de todos — não apenas dos mais informados ou dos que podem pagar.
⸻
Conclusão
O 25 de Abril permitiu aos portugueses muito mais do que votar ou expressar-se livremente. Abriu portas para que cada um possa hoje fazer escolhas que promovem saúde, bem-estar e qualidade de vida. A alimentação saudável é, assim, uma extensão da liberdade conquistada — uma liberdade que se materializa em cada refeição consciente, em cada opção informada, em cada gesto de cuidado com o próprio corpo e com o planeta.
Neste Abril, ao celebrarmos a democracia, celebramos também o direito de cuidar de nós mesmos — porque ser livre é, também, poder escolher o que colocamos no prato.
Leave a Reply